Triste Partida
Desde que me entendo por gente, minha vida sempre girou em torno de comida. Domingo era aquele dia em que nos reuníamos na casa da vó, todos os primos e primas para comer aquela macarronada com frango no molho.
O frango era escolhido pessoalmente em uma granja, em que você escolhia o frango e ele era morto na hora, embalado em papel jornal. Lembro do cheiro horroroso do lugar, fezes de galinha em todo canto e os gritos. Minha vó sempre saía satisfeita do lugar, pois tinha a certeza de que tinha escolhido o frango mais gordinho para a família. Lembro que o frango já saía aquecido. Esse tipo de granja não existe mais assim como as reuniões familiares em torno da minha vó, que já faleceu aos seus 84 anos.
Sim, ela era o pilar que reunia nossa família. A comilança, com todos à mesa era tanta gente que sentávamos até no chão, mas o que importava era comermos todos juntos. A comida nos dá prazer, alegria, conforto, às vezes raiva do tipo quando se paga caro em um restaurante e a comida está ruim. Mas ela gira em torno da nossa existência; eu diria até mesmo que ela nos molda. Já diria aquela famosa frase do filósofo Hipócrates: “somos aquilo que comemos”.
Dos alimentos tiramos a nossa força, energia, vitaminas, moléculas, hormônios enfim, tudo o que é necessário para a nossa sobrevivência. Além do hábito, da cultura e das memórias. Aquele frango no molho com macarrão: eu sinto o cheiro, o sabor, lembro das risadas, da família reunida. A comida vai além de nutrir ela também tem afetividade, aconchego, e pode sim nos emocionar. Se você viajar sem experimentar um prato local, é quase como se não tivesse conhecido o lugar. Seja qual for o local em que você esteja inserido, vai existir um prato típico e nós, brasileiros, somos imensamente privilegiados, pois temos uma grande diversidade de pratos, baseada em cada região. A comida também pode ser até geracional, assim como a moda: festas dos anos 90 eram regadas a tubaína de garrafa, bolo com glacê e confeitos prateados, batatinhas marinadas no vinagrete pura nostalgia.
Depois que minha vó partiu, nunca mais nos reunimos como antes. A alegria da mesa virou lembrança. Confesso que, durante anos, adquiri uma vida com maus hábitos, pois a comida sempre foi emocional para mim sempre que me lembro de estar triste ou feliz, penso em comer. Não posso negar que vivo atrás de algo gostoso para comer, sempre me faltando algo: sabe aquela sensação de “preciso comer algo gostoso hoje”? O prazer da comida virou excesso, compensação e até mesmo recompensa. E não, não virei uma “bela gostosa”: acumulei gordura visceral, triglicerídeos, hipotireoidismo e colesterol alto. O fácil acesso a processados e a vida com estresse cotidiano fazem com que busquemos alimentos mais rápidos, até mesmo com um custo mais baixo, repletos de calorias vazias, mas com um gostinho de quero sempre mais. Tudo isso me fez quase uma sanfona, com idas e voltas do sobrepeso ao padrão clinicamente considerado saudável.
Até que conheci a Tirzepartida digamos que estamos vivendo a era Mounjaro, nome pelo qual a substância ficou famosa. Isso mesmo, a substância: assim como no filme de Demi Moore, existe uma transformação no corpo, sem ser um filme de terror, mas algo que aterroriza os donos de fast food e confeitarias. A Tirzepartida age na saciedade e também na nossa mente sabe aquela voz da vontade de comer uma coisa gostosa que eu não sei o que é, o ruído alimentar? Ela age exatamente aí, tira aquela vontade de comer coisinhas gostosas. Claro que considero uma revolução no contexto mundial da medicina, um remédio que realmente está se mostrando eficaz ao que promete.
Será que é o fim dos fast foods? Isso eu não sei. Algumas mudanças demoram mais de 10 anos para se consolidar. Às vezes penso: será que estamos caminhando para uma sociedade triste e sem aquele brilho nos olhos sabe, aquele que temos quando vemos uma torta de chocolate bem bonita em uma vitrine de doceria, sem esse brilho da vida de uma bela macarronada com frango ao molho, sem o brilho daquelas reuniões com a família ou amigos, regadas a muita comida e bebida. Talvez um dia aprendamos a equilibrar e controlar os excessos, sem uso de qualquer substância. Mas, por enquanto, ficamos aqui: eu, triste com a partida da minha vó e o fim da infância que foi marcada por esses momentos; e os donos de fast food, tristes com a Tirzepartida.
2 Comentários
Priscila Bitto
Parabéns, excelente !!!
Rafael Aguiar
Muito bem colocado. Um link direto de novos hábitos com costumes antigos e emoções.
Me fez refletir o quanto um medicamento(não somente o monjaro) pode interferir na nossa psiquê. E o mais interessante é que não estamos falando de medicamentos psicoativos e sim de medicamentos que afetam a fome, que afeta por vez reunião de famílias e amigos, e muda a sociedade.
Isso me faz refletir que esse mesmo remédio poderia impactar a economia. Barres que deixam de serem frequentados, restaurantes com menor rotatividade, indústrias de alimentos que tem queda em faturamento.
Várias reflexões e debates a serem analisados.