Ensaios

Carta a um ausente

O ano era 2010. Exatamente na noite de 19 de maio, eu já estava há nove dias internada. Minha bolsa havia rompido; estava com sete meses de gestação. Os médicos me avaliavam todos os dias e me diziam: “Não importa quanto tempo você fique nesta maca, deverá ficar quieta, segurando o bebê, para o amadurecimento total dele para o parto”. Não importa o quão imóvel eu permanecia, o líquido amniótico continuava se esvaindo; restava pouco para o conforto fetal.

Nesta noite, eu fui neurótica. Eu simplesmente pressentia que já não havia mais tempo, não sentia mais ela dentro de mim. Eu estava só, vivendo a maternidade de todos os piores jeitos: mãe de primeira viagem, sem preparo, sem ajuda. Apenas naquele momento me acompanhavam um livro, “A Cabana”, ao qual me agarrei nos dias de internação, e um escapulário dourado. Mesmo sem saber rezar, de alguma forma aqueles dois objetos me deram esperança. Hoje acho irônico um livro de um pai com depressão ter me dado esperança, mas, enfim, hoje entendo como a espiritualidade ajuda quando estamos perdidos, sem nenhuma direção, sem amparo, apenas com a esperança de que existe algo maior que nós.

Na manhã do dia 20 de maio, lembro-me com riqueza de detalhes: entrou um médico alto e viu meu sofrimento. Eu já não dormia, estava desesperada, sabia que aquele dia seria fatal, algo em mim me dizia isso. Ele olhou em meus olhos e disse: “Se prepare, você deverá entrar em cirurgia”. Eu senti um alívio. Coloquei o terço dourado do meu lado. Estava sozinha neste momento, nem pensei em ninguém, apenas nela. Para ser bem sincera, nesse tempo todo não senti falta de apoio, mas, a partir daquele dia, era como se eu soubesse que essa jornada na maternidade seria somente minha: uma jornada de mãe e filha. Mesmo que no caminho tenhamos, sim, pessoas que nos apoiam, eu sabia que essa jornada seria apenas para duas pessoas. Hoje olho para o meu passado e vejo que todo aquele sofrimento que passei era só a preparação para o caminho que viria depois dali.

Eram 11h05 da manhã e ela veio ao mundo. Os enfermeiros não me deixaram ver, estava confuso, mas lembro das suas mãozinhas roxas. Ali percebi o quão foi importante meu ataque histérico com enfermeiros e médicos. Ninguém me escutou naquela noite, até mesmo um familiar me julgou, falando que, se eu não me comportasse, iriam me maltratar depois, na hora do parto. Aquele médico alto me viu. E foi assim que ela veio ao mundo: sem romantismo, sem o lado da paternidade para desmaiar igual a cenas de filmes, sem a família fazendo festa. Só eu e ela, apenas iniciando uma jornada de mãe e filha.

Talvez você deva estar se perguntando: “Mas e o outro lado? E a figura masculina que seria rotulada como pai da criança?”. Posso lhes contar que se encontra ausente até hoje. Afirmo que, de certo modo, cumpriu seu papel como pôde,talvez até como lhe foi conveniente.

E hoje, em seu aniversário de 16 anos, essa palavra, “ausente”, não saiu da minha mente. Na sua etimologia, a palavra ausência significa o ato ou estado de não estar presente em um determinado local. Lembrei da música da Marília Mendonça; ela fala para a pessoa não se preocupar, pois “minha ausência basta”. E, realmente, para que se preocupar? Digamos que estamos falando de uma ausência de 10 anos, sendo que 6 foram “como pôde”, e pôde pouquíssimo. Nesse momento, você deve achar que esse desabafo se refira a uma ausência paterna… e é.

Mas a própria palavra fala que ausência é um ato de não estar presente. Como posso direcionar algo a alguém se tal ato, de certa forma, talvez nunca tenha ocorrido? Eu vi um vídeo do Mario Sergio Cortella que fala que “a presença da ausência” é uma das coisas mais difíceis de lidar. Engraçado que, no dualismo das palavras, para existir uma deve haver a falta da outra, assim como a luz e a escuridão. Na literatura do desenvolvimento humano, a ausência de uma figura paterna pode impactar negativamente nos aspectos emocionais do ser humano, podendo deixar sequelas profundas e se manifestar em diferentes áreas da vida.

Mas por que justo hoje, em seu aniversário de 16 anos, essa palavra não me saiu da cabeça?

Talvez eu me preocupe com o adulto que virá no futuro. Não é uma fase lá muito boa. Mesmo sabendo de todo o impacto negativo que possa gerar a falta da tal figura paterna, a presença de uma figura como tal, se for de uma maneira sem afeto, sem a presença do apego afetivo, também pode vir a gerar muito mais impactos negativos na vida de qualquer ser humano.

Sou Tatiane ou Tati, para quem já me conhece um pouco. Nasci em 1984, sou mãe, solteira e atípica, estudante de Psicologia e escritora por vocação desde que aprendi a segurar um lápis. Amo ler, cinéfila assumida, apaixonada por artes e por tudo que a natureza tem de imenso e silencioso. Carrego histórias há muitos anos. Algumas delas ficaram guardadas, esperando o momento certo. Esse momento é agora. O Tatigrafias nasceu de uma inquietação: vivemos num mundo cada vez mais digital e acelerado, onde as palavras perderam o peso. Sinto falta de textos que nos devolvam à nossa própria humanidade ,que nos façam sentir, lembrar, respirar. É isso que quero trazer aqui. Você vai encontrar poesias, crônicas, ensaios sobre a vida, análises de filmes e livros, e conversas sobre psicologia. Tudo escrito com cuidado, com verdade e com muito afeto. Tenho o sonho de escrever um livro. Por ora, começo por aqui contando histórias para quem quiser ouvir. Um grande abraço, Tati

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